Quarta-feira, 8a Semana do Tempo Comum [Português]
| James Tissot: Recomendação aos apóstolos entre 1886 e 1894 (Brooklyn Museum) |
A ilusão do poder e o caminho do cálice
Leituras da Missa: 1 Pe 1, 18-25 ; Salmo 147/147b ; Mc 10, 32-45
A ferida do cálculo diante do amor gratuito
No domingo anterior, celebramos o Pentecostes, o dom de Deus que ultrapassou as portas trancadas e transformou o medo em alegria, em coragem para testemunhar, para levar a boa nova a todas as nações. Mas o nosso coração humano tem a memória curta e uma infeliz tendência a perverter tudo. E na liturgia de ontem, a ilusão do cálculo nos espreitava com Pedro. Hoje, São Marcos nos faz dar um passo a mais na verdade da nossa interioridade.
No Evangelho, estamos a caminho de Jerusalém, Jesus caminha à frente, com um passo que impressiona e assusta, pois Ele sabe o que O espera. É exatamente neste momento, enquanto Ele anuncia a sua Paixão pela terceira vez com detalhes arrepiantes, que Tiago e João se aproximam para lhe pedir os melhores lugares. Trata-se de um choque espiritual: diante da gratuidade absoluta do dom que o Cristo está prestes a fazer, os discípulos respondem com uma lógica de carreira, de posicionamento e de poder.
São Pedro, na primeira leitura, faz o diagnóstico exato do que está em jogo aqui: ele nos lembra que fomos resgatados da conduta superficial herdada dos nossos pais. Essa conduta superficial é precisamente aquela que consiste em avaliar a nossa vida a partir do critério do que possuímos, da nossa influência ou dos lugares que ocupamos. São Pedro, então, nos mostra que o ouro e a prata são corruptíveis, assim como as nossas ambições humanas: o único preço da nossa liberdade é o sangue precioso do Cordeiro. Portanto, se o nosso valor custou a vida do Filho de Deus, como podemos ainda perder tempo mendigando migalhas de poder ou privilégios humanos?
Os dois batismos: entre a ambição e a realidade do dom
A resposta de Jesus aos filhos de Zebedeu vai direto ao ponto: «não sabeis o que pedis». Sejamos sinceros: essa é bem a frase que Deus poderia nos repetir cada vez que as nossas orações se transformam em listas de reclamações para que o nosso ego seja satisfeito… Jesus lhes propõe, então, um deslocamento radical ao falar-lhes do cálice e do batismo: «Podeis beber o cálice que eu vou beber, ser batizados no batismo no qual eu vou ser mergulhado?». Na exegese bíblica, a palavra batismo vem do grego βαπτίζω (baptizo), que significa ser mergulhado, imerso. Jesus, então, não lhes fala de uma cerimônia de purificação, mas de uma imersão total na realidade do seu sofrimento e do seu amor.
Tiago e João respondem com a presunção daqueles que ignoram as suas próprias fraquezas: «podemos». Eles ainda pensam que se trata de um esforço heroico, de uma façanha humana para merecer uma coroa, mas o Cristo lhes tira a palavra: sim, eles beberão o cálice, mas o beberão quando tiverem perdido as suas ilusões. O poder busca sempre elevar-se, dominar, sentar-se à direita ou à esquerda; o Cristo, por sua vez, está prestes a ser elevado numa cruz, com um ladrão à sua direita e outro à sua esquerda: eis a glória que os discípulos reivindicavam sem saber. Jesus lhes mostra que seguir a Deus não é uma ascensão social ou espiritual, mas uma descida na verdade da nossa humanidade ferida para nela deixar Deus reinar.
A inversão dos valores: servir para ser livre
A reação dos outros dez discípulos é reveladora: eles se indignam, e essa indignação não é uma santa ira, é puro ciúme. De fato, os outros dez estão furiosos porque Tiago e João ousaram pedir o que cada um deles esperava em segredo. É surpreendente como o Evangelho é sincero, vemos claramente que a comunidade dos discípulos está fragmentada pela rivalidade. É então que Jesus chama todos para perto de si para estabelecer o grande princípio da vida nova, o anti-Babel das relações humanas: os chefes das nações as dominam como senhores, mas entre vós não deve ser assim…
Eis a conversão que Deus quer realizar em nós. No mundo, a grandeza se mede pelo número de pessoas que se controla ou que estão ao nosso serviço, ao passo que no Reino, a grandeza se mede pela nossa capacidade de nos abaixarmos para carregar a vida dos outros: «Aquele que quiser ser o primeiro será o escravo de todos». O Cristo não faz moralismo, Ele descreve a sua própria identidade. De fato, Ele não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate pela multidão. A palavra grega utilizada para resgate é λύτρον (lytron), o preço pago para libertar um escravo. Jesus se faz servo para nos livrar da escravidão mais feroz: a necessidade obsessiva de existir pelo olhar dos outros e pelo poder.
Conclusão e aplicação para o nosso dia
Esta página do Evangelho nos estende um espelho às vezes desconfortável, mas infinitamente libertador para a nossa vida de hoje. Em nossas famílias, em nossos locais de trabalho e até mesmo em nossos engajamentos na Igreja, desperdiçamos uma energia incrível defendendo o nosso território, exigindo respeito, indignando-nos com os privilégios dos outros ou buscando secretamente o primeiro lugar; tudo isso nos esgota e nos torna infelizes.
A aplicação concreta para o nosso dia é aceitar descer um degrau. Hoje, escolhamos deliberadamente não buscar brilhar, não impor o nosso ponto de vista e deixar o lugar de honra para o outro, alegrando-nos pelos outros. Quando o sentimento de frustração por não sermos reconhecidos surgir em nós, lembremo-nos das palavras de São Pedro: a nossa vida tem valor demais para que a vendamos a preço de banana em rivalidades superficiais. Façamos o esforço de realizar um ato de serviço escondido, sem esperar agradecimento: é nessa escolha diária e discreta de servir que fazemos a experiência da verdadeira liberdade e que permitimos que a palavra viva de Deus dê frutos em nós.
Oração
Senhor Jesus, Eu me reconheço tantas vezes na ambição de Tiago e João, e na indignação ciumenta dos outros dez discípulos. Perdoa-me por buscar Te seguir pelo que isso me traz de vantagem, por querer usar a Tua glória para mascarar as minhas próprias inseguranças e a minha necessidade de controle.
Olha para o meu coração, Senhor, e purifica-lo dessa conduta superficial que me impulsiona a me comparar e a rivalizar. Ensina-me a não ter mais medo do cálice do serviço e do batismo da humildade. Quando a vontade de dominar ou de ser reconhecido me tomar, lembra-me de que Tu deste a Tua vida em resgate por mim, e que a minha única dignidade é ser amado por Ti. Dá-me a alegria de me tornar pequeno, a força de servir os meus irmãos sem nada esperar em troca, para caminhar no Teu seguimento na estrada da verdadeira grandeza. Amém.
Commentaires
Enregistrer un commentaire