Solenidade de Pentecostes - Ano A [Português]
| O Pentecostes (Giotto di Bondone, por volta de 1304-1306, Capela dos Scrovegni em Pádua) |
O Sopro sobre as nossas portas trancadas
Leituras da Missa do dia: Ac 2, 1-11 ; Salmo 103/104 ; 1 Co 12, 3b-7.12-13 ; Jo 20, 19-23
1. O paradoxo do cenáculo: o medo diante da promessa
Há um contraste impressionante entre a primeira leitura e o Evangelho de hoje, entre o estrondo exterior dos Atos dos Apóstolos e o silêncio confinado do Evangelho de João. São Lucas, na primeira leitura, nos retrata um Pentecostes cósmico: um vento violento, fogo, uma multidão imensa em pleno turbilhão. Mas São João, no Evangelho, nos traz de volta à verdade íntima do nosso coração: na noite do primeiro dia da semana, os discípulos estão lá, imóveis, escondidos. O texto grego utiliza a palavra kekleismenōn (κεκλεισμένων que vem de κλείω) para dizer que as portas estavam literalmente trancadas. Mas esse termo grego também tem um sentido metafórico, portanto, não é apenas uma questão de segurança física, mas é também o retrato espiritual da nossa condição humana: fechamos as portas quando temos medo de sofrer novamente, quando o luto, o fracasso ou a culpa nos murmuram que permanecer escondidos é a única maneira de sobreviver.
Os apóstolos viveram tudo com Jesus e, no entanto, estão prisioneiros de sua própria decepção. Eis o primeiro mistério desta Solenidade: o Espírito Santo não procura homens perfeitos, corajosos e prontos para conquistar o mundo, Ele procura um lugar fechado para fazer o infinito entrar nele. O Pentecostes começa sempre no lugar exato onde nos sentimos mais bloqueados, lá onde colocamos trancas à nossa existência.
2. O arrombamento da Paz e a pedagogia das feridas
E no meio desse confinamento espiritual, Jesus vem: Ele não bate à porta, Ele atravessa o que faz obstáculo. Sua primeira palavra é um bálsamo: «A paz esteja convosco». Em hebraico, esse Shalom não é uma simples fórmula de polidez, é o dom da plenitude original, aquela que cura a fratura, a distância entre Deus e o homem.
Mas olhemos bem para o gesto que segue imediatamente esta saudação: «Mostrou-lhes as mãos e o lado». Por que o Ressuscitado faz tanta questão de exibir as cicatrizes da sua Paixão? É uma imensa intuição teológica. Com efeito, as feridas de Cristo são as provas de uma identidade preservada: Aquele que está vivo é exatamente Aquele que foi esmagado pela dor. Mas, mais ainda, essas cicatrizes se tornam fontes de luz! Na nossa lógica humana, pensamos que para sermos amáveis ou úteis, devemos esconder nossas feridas: Christo faz exatamente o inverso. Ele mostra que a vida do Espírito não suprime o nosso passado ferido, ela o transfigura; e ainda, é ao ver essas chagas abertas e agora luminosas que os discípulos passam do medo para a alegria. O Espírito Santo entra na Igreja pelas feridas de Cristo, para nos ensinar a não ter mais medo das nossas.
3. O Sopro do Gênesis e a recriação do homem
É então que ocorre o gesto mais denso de toda a cena: Jesus soprou sobre eles. O verbo empregado aqui no texto bíblico, enephysēsen (ενεφυσησεν), é extremamente raro, só sendo encontrado em outros dois momentos cruciais do Antigo Testamento na versão grega (Setenta): no livro do Gênesis, quando Deus sopra nas narinas da lama de Adão para fazer dele um ser vivo, e no livro de Ezequiel, quando o sopro divino devolve a vida aos ossos secos.
O que Jesus faz nesse cenáculo não é uma simples transmissão de poder, é uma nova criação: o homem que se havia encolhido sobre si mesmo por causa do pecado e do medo da morte recebe um novo princípio de vida. O Espírito Santo é esse sopro divino que oxigena a nossa interioridade asfixiada. Sem esse sopro, nossas estruturas eclesiais, nossos projetos pastorais e nossos esforços pessoais não passam de lama bem organizada, ossos secos cobertos por uma bela aparência. Receber o Espírito é aceitar que Deus respire em nós lá onde não sabíamos mais como viver.
4. O dom das línguas: o anti-Babel e a unidade na diversidade
Aqui, o relato dos Atos dos Apóstolos ilumina magnificamente essa realidade íntima do Evangelho. O texto nos diz que, quando os discípulos, recriados pelo sopro de Cristo, finalmente saem, começam a falar em outras línguas. O Espírito Santo não cria uma língua única e uniforme que esmagaria as culturas; pelo contrário, os povos mais diversos – partos, medos, elamitas, habitantes da Frígia ou da Líbia – ouvem as maravilhas de Deus cada um em seu próprio dialeto, sua língua materna.
É a inversão total do drama de Babel. Enquanto no evento de Babel os homens queriam construir uma torre para tocar o céu por suas próprias forças, e o resultado foi a incompreensão e a dispersão, no Pentecostes, é o Céu que desce em direção à terra, e o Espírito Santo realiza o milagre de uma unidade que respeita a singularidade de cada um. Como São Paulo nos lembra na segunda leitura, os dons da graça são variados, mas é o mesmo Espírito. Com efeito, o Espírito Santo não suprime as nossas personalidades, nossas sensibilidades ou nossas histórias pessoais; Ele as harmoniza entre si como as notas de uma imensa sinfonia para formar um só Corpo, o de Cristo.
5. A missão da Misericórdia: desligar a história humana
O ápice do dom do Espírito no Evangelho de hoje é a instituição do ministério da reconciliação: «A quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados». É um erro frequente reduzir o Pentecostes a um simples entusiasmo espiritual ou a uma explosão de carismas espetaculares: o objetivo último do Espírito Santo é o perdão dos pecados. Por quê? Porque o pecado é a verdadeira tranca da nossa vida, é o pecado que nos encerra no passado, que nos condena a repetir nossos erros e que quebra nossos relacionamentos.
Dar à Igreja o poder de perdoar é injetar na história humana uma força de libertação total. O texto utiliza o verbo ἀφέωνται de ἀφίημι (aphieemi) que significa literalmente soltar, deixar ir, desligar. O Espírito Santo, então, é enviado para que o nosso passado não determine mais o nosso futuro. Jesus, que sopra o Espírito sobre os apóstolos, também os envia: ser enviado como o Pai enviou o Filho é tornar-se portador dessa misericórdia que abre as prisões interiores e devolve uma chance àquele que se julgava definitivamente perdido.
Conclusão e aplicação para o nosso dia
O Pentecostes não é um evento do passado do qual faríamos uma comemoração nostálgica, mas uma realidade texturizada e concreta para o nosso dia de hoje. Todos nós temos, neste exato momento, uma parte da nossa vida que se assemelha a esse cenáculo: uma situação familiar bloqueada, uma ferida afetiva que se recusa a cicatrizar, um medo do futuro que nos paralisa e nos impele a trancar nossos corações.
A aplicação prática desta festa é cessar de lutar contra as nossas trancas apenas com as nossas forças nervosas. Cristo não nos pede para abrir a porta para que Ele possa entrar; Ele nos pede para esperá-Lo lá onde estamos fechados! Hoje, tiremos alguns minutos de silêncio para identificar nossa zona de medo e digamos simplesmente: «Vem, Espírito Santo. Vem respirar na minha angústia, vem habitar minhas rachaduras.» Deixar o Espírito agir é aceitar que a nossa fragilidade se torne o lugar onde a potência de Deus se manifesta, e ousar dar um passo de perdão ou de paz em direção a alguém, quebrando assim o círculo vicioso do isolamento.
Oração
Senhor Jesus, Olha para as portas trancadas do meu coração, olha para os meus medos secretos, minhas decepções e essa infeliz tendência que tenho de me esconder quando a vida me fere. Eu Te peço hoje: não pare nas minhas barreiras, mas atravesse as minhas defesas. Vem colocar-Te no meio das minhas ruínas e dize à minha alma ansiosa: «A paz esteja contigo».
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